Com investimento da Petrobrás, agrônomo e professor Marcos Bacis Ceddia coordena mapeamento digital na Floresta Amazônica e no Recôncavo Baiano

Por Victor Ohana, da FAPUR

Estudar o solo é uma etapa fundamental da extração terrestre de petróleo e gás. Até parece evidente que, para retirar minerais de uma determinada área, você precisa conhecer bem onde está pisando. Mas foi uma pesquisa da Universidade Rural que fez a Petrobrás enxergar a real importância do estudo do solo para a exploração de petróleo no estado do Amazonas. Desde 2008, o engenheiro agrônomo e professor Marcos Bacis Ceddia coordena um projeto que realiza o mapeamento digital de uma área de extração na cidade de Coari, localizada a cerca de 650km da capital Manaus. A pesquisa tem a colaboração da FAPUR.

A área de extração em questão leva o nome de Província Petrolífera de Urucu. Embora se encontre na cidade de Coari, a província fica em plena Floresta Amazônica, no meio da selva, e só pode ser visitada por meio de barcos ou aviões. O local ganhou o nome de província porque as atividades da base de exploração de óleo e gás da Petrobrás motivaram a construção de alojamentos, aeroporto, hospital e toda uma infraestrutura independente que faz tudo parecer uma cidade dentro da floresta. Lá, vivem todos os trabalhadores que atuam na plataforma.

O projeto de Ceddia começou quando ele foi chamado na província para estudar os impactos das atividades da base petrolífera na natureza. Os petroleiros se preocupavam em entender como a extração poderia influenciar na erosão do solo. Além disso, procuravam saber como recuperar as áreas atingidas. Apesar de muitas pesquisas já realizadas pelos próprios trabalhadores da província, faltava organizar os dados e saber que medidas tomar a partir deles. Ceddia então elaborou um levantamento de informações do solo local, com o objetivo de investigar formas de controlar a erosão. Entre 2008 e 2013, o pesquisador produziu um banco de dados digital, com mapas topográficos, mapas de erosão e relatórios de instrução para a recuperação das áreas possivelmente degradadas pelos efeitos da extração de óleo e gás.

Na conclusão, percebeu-se que o estudo poderia tomar maiores proporções. Isso porque, segundo Ceddia, a apuração das características do solo pode gerar informações úteis não só para a prevenção de impactos ambientais, mas também para a própria atividade de extração.

“A gente mostrou que o conhecimento dos solos permitia que os petroleiros planejassem melhor as suas atividades. E não falo somente no aspecto da erosão. Conhecer a distribuição dos tipos de solo melhora, por exemplo, o planejamento de abertura de poços de petróleo para exploração. Além disso, torna-se possível saber onde é melhor fazer o traçado de uma estrada, porque existem lugares em que a estrada se encontra impraticável por causa do tipo de solo”, explica o pesquisador. “Eles perceberam que, com essas informações, poderiam reduzir prejuízos financeiros. Tem áreas que eles abriram estradas e que não conseguem passar depois, porque o solo é ruim, alaga, tem que interditar o local e tirar as pessoas de lá com helicóptero”, conta ele.

Foi nesse momento que a Petrobrás decidiu prolongar a parceria com o professor e expandir o projeto. Se, no início, a equipe do agrônomo mapeou aproximadamente 116 mil hectares de solo, o professor agora ampliou os estudos para uma área dez vezes maior, na própria Floresta Amazônica. Além disso, o projeto inspirou a Petrobrás a realizar o mesmo tipo de mapeamento de solos na região do Recôncavo Baiano, no estado da Bahia, também com fins de exploração. O investimento da estatal nessas análises é de R$ 5,6 milhões.

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Estudiosos criaram algoritmo para calcular características do solo

O professor Ceddia comanda uma equipe de 33 pessoas, em parceria com o vice-coordenador do projeto, o doutor em Ciências do Solo André Luiz de Oliveira Villela. O conjunto é formado por professores de Matemática e Computação, alunos de pós doutorado, doutorado, mestrado e graduação e técnicos. Eles também contam com a colaboração do pesquisador Gustavo Vasques, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Desde 2017, esta equipe desenvolve o mapeamento digital na Amazônia e, em 2019, fará o mesmo procedimento no território baiano.

O projeto leva o nome de “mapeamento digital” porque o grupo utiliza técnicas tradicionais e digitais de mapeamento de solos. Os estudiosos desenvolveram algoritmos que utilizam as informações de uma área menor para estimar tipos e atributos do solo em áreas maiores que tenham um padrão similar. Essas informações oferecem dados sobre o relevo e a paisagem. Ceddia explica que a técnica de mapeamento digital é mais rápida e econômica que a convencional. Além disso, sua precisão é compatível com o método tradicional.

“Você tem duas maneiras de fazer o mapa de solos. No mapa convencional, o pedólogo (nome dado ao especialista em ciência de solos) vai a campo, levanta os tipos de solos e estabelece a relação destes com os padrões da paisagem. Em seguida, com base em mapas topográficos e fotos aéreas, ele desenha na mão essas informações. No mapeamento digital, o pedólogo também vai a campo, descreve os solos, coleta as amostras e, depois, utiliza técnicas computacionais e estatísticas para desenvolver modelos de predição de tipos e atributos de solos. Nesse caso, usamos sistemas de informação geográfica, técnicas estatísticas, inteligência artificial e outros recursos”, explica o pesquisador. “O mapeamento digital consegue acelerar o processo do estudo. A máquina auxilia e torna menos subjetiva a interpretação dos dados”, complementa.

Ceddia relata que a primeira etapa do trabalho é visitar pessoalmente uma área reduzida e recolher amostras. Depois, eles usam o software para interpretar essas informações e estimar as características do solo em uma área maior. Em seguida, é necessário ir a campo novamente, para verificar se de fato a estimativa calculada corresponde à realidade. Com esses dados validados, a equipe de Ceddia deve entregar à Petrobrás um relatório com alternativas para se lidar com os impactos das atividades da Petrobrás no solo estudado.

“O que a Petrobrás está pedindo não é só o estudo dos solos. O dado do solo por si só não diz nada para a sociedade. O que precisamos entregar é um relatório que retire dúvidas como: esse solo é mais apto para que atividade? Oferece risco para qual procedimento? Se eu quiser fazer uma estrada, qual o melhor traçado? Como as informações do solo nos ajudam nisso? Qual área tem mais potencial para a agricultura? Ou qual tem mais risco de erosão e desmoronamento no decorrer de uma obra? O produto final da Petrobrás não é o mapa de solos. Ela quer mapas de aptidão para estradas, obras, agricultura, retenção de água, infiltração, salinidade, entre outros”, justifica o agrônomo.

A parceria com a estatal está dando a oportunidade para Ceddia testar um aplicativo inédito desenvolvido na Rural, chamado Open Soils. Trata-se de um sistema de informação de solos para coleta, armazenamento e consulta de dados. O Open Soils captura dados de campo via web, em smartphones e tablets, adequado para qualquer tipo de estudo de solos. Os dados armazenados podem ser morfológicos, físicos, químicos e mineralógicos, além de imagens. Para o pesquisador, esta é uma das evidências sobre a importância do apoio a pesquisas como essa para os avanços tecnológicos no país.

“Esse investimento da Petrobrás representa uma fonte de recursos maior, que permite o desenvolvimento de técnicas mais ambiciosas. Esse tipo de convênio torna viável criar laboratórios, formar alunos e, principalmente, gerar soluções para problemas reais”, afirma.

Agrônomo e professor Marcos Bacis Ceddia comanda equipe com mais de 30 integrantes (Foto: Victor Ohana/FAPUR)

Participação da FAPUR é fundamental no projeto, diz pesquisador

A FAPUR colabora com a pesquisa oferecendo assistência administrativa. Ceddia comenta que o papel da Fundação é agilizar o andamento do estudo.

“A FAPUR é fundamental para tornar a gestão dos recursos mais eficiente e rápida. Eu não teria como fazer a execução financeira sem a agilidade que o projeto demanda. Se eu não tenho a Fundação, não há como continuar”, finaliza.